Olá, pessoal! O assunto que trago hoje é sobre liberdade espiritual. Vou escrevê-lo em duas partes, e esta é a primeira. Espero que faça sentido para a sua jornada! Abraço!
O grito de "liberdade pra dentro da cabeça" não é apenas verso e canção na boca de fãs dos Natiruts. Liberdade é um conceito importante, abrangente e universal. É um anseio de todos. Está presente em poemas, em livros, no teatro, na música, no cinema, no divã do psicólogo, nos tratados acadêmicos e em outros artefatos culturais. O assunto pode, tanto partir de uma perspectiva mais existencial e particular, como envolver as relações afetivas e chegar aos contornos sociais, jurídicos, ideológicos e políticos de um grupo ou povo. Não vou filosofar em algo tão extenso e de tamanha complexidade, mas pretendo abordar o assunto à luz das lentes bíblicas e das palavras de Jesus.
Pelo viés mais individual, os tempos hipermodernos caracterizados pela subjetividade e pela desconfiança na razão como fonte de todas as respostas abriram espaço para esta busca metafísica e religiosa, de um "encontro consigo mesmo e com o universo" num contexto de fragmentação, ansiedade e individualização. As pessoas consultam o coração e, até quando têm tudo que necessitam para viver, ainda sentem-se presas, em busca de algo mais. No fundo, esta busca vem revelar a miséria da alma humana a gritar por liberdade, propósito, leveza, sentido, comunhão, comunidade, cura, descanso e felicidade. Não há asas que cheguem em cada um de nós para voarmos tão livres ao nosso paraíso imaginário. Mas o sonho de liberdade continua dentro, à procura de uma saída.
Jesus tanto falou sobre liberdade quanto libertou, efetivamente, pessoas presas por satanás. Sua atuação era poderosa, impressionante e definitiva. Bastava uma palavra, e pessoas em sofrimento eram libertas de demônios e enfermidades. As multidões viviam em sua procura e, por isto, os líderes judeus ficaram tão odiosamente enciumados. Em conversa com tais homens Jesus disse: "mas conhecereis a verdade e a verdade vos libertará... Se o Filho, pois, vos libertar, verdadeiramente sereis livres." (Jo 8.32,36). Os fariseus replicaram a fala de Jesus dizendo que eram filhos de Abraão, e que nunca haviam sido escravos de ninguém. Mas Jesus argumentou dizendo "todo o que peca é escravo do pecado" (Jo 8.34). Para o Mestre, o impedimento para a liberdade encontra-se no pecado que praticamos, e que nos torna escravos. E a verdade que liberta não é um conceito, uma filosofia, um dogma, uma prática meditativa ou uma experiência extraordinária, mas um encontro com a Verdade, que é Ele próprio, o Senhor Jesus.
Em outras palavras, somente Jesus, o Filho de Deus, que é a verdade e está fora de nós mesmos, é capaz de libertar pecadores de seus pecados e mentiras para que sejam verdadeiramente livres. Isto é o que a Bíblia denomina salvação. Não se trata de religiosidade, esforços por melhoramento pessoal, sacrifícios, boas obras e penitência. A religião (seja ela qual for, do oriente ao ocidente) mata, escraviza e não dá conta de curar o vazio e a maldade humana. Jesus, sim, é quem liberta-nos do pecado, transforma o coração da gente pelo Espírito Santo e concede-nos vida abundante gratuitamente. A obra da Cruz foi suficiente e a Ressurreição garantiu-nos a veracidade de tudo. Andar com Jesus e permanecer Nele é o que nos conduz ao lugar de liberdade interior e frutificação que tanto almejamos.
No entanto, ainda vemos cristãos a sentirem-se presos, sufocados entre espinhos. Parecem embaraçados em pesos desnecessários e assediados por pecados que já deveriam ter vencido. Estão numa selva de maus pensamentos, emoções doentias e distrações em demasia geradas pelo excesso de entretenimento. Não raro, nossas companhias mais íntimas são a ansiedade, a inveja e os desejos indevidos ou fora de controle. Aproveitamos muito pouco do divino poder que nos foi concedido para que vivamos em piedade e conhecimento completo Daquele que nos chamou para a Sua glória e virtude (2Pe 1.3). Se realmente cremos na suficiência da Obra de Jesus para nos libertar e restaurarar ao relacionamento com Ele, o que é que nos falta? A resposta ao que nos falta é crescermos em nossa fé. E isto carece de intencionalidade e disciplina para não sabotarmos a nossa própria liberdade que advém do relacionamento vivo com Cristo.
A fim de valorizarmos este relacionamento crescente e libertador com o Senhor, quero seguir a lógica apostólica do Novo Testamento - refletida por muitos cristãos no decorrer dos séculos - propondo que a tão sonhada liberdade que já foi conquistada por Jesus deve ser cultivada e nutrida carinhosamente através de disciplinas espirituais. Richard Foster, no clássico Celebração da Disciplina, disse bem quando afirmou serem as disciplinas espirituais um trilho que nos coloca no caminho da Graça de Deus. Ou seja, não são as disciplinas em si que nos aperfeiçoam, mas elas colocam-nos no trilho onde o Espírito de Deus passa para nos transformar. Ficamos no ponto certo para o encontro com a locomotiva da Graça, que apanha-nos e leva-nos a um novo patamar de vida e liberdade. No segundo post sobre Disciplinas da Liberdade irei apontar quatro práticas importantíssimas que contribuem para este crescimento em liberdade na fé.
Para finalizar, deixo algumas questões de autoavaliação. Caso aperceba-se num caminho de esfriamento, pare, reflita, ore e busque um amigo ou mentor para conversar.
- O que há de errado como meu crescimento?
- Por que estagnei ou regredi na vida espiritual?
- Há pecados em minha vida para serem confessados?
- Há algo que representa um peso desnecessário na minha "mochila de viagem"?
- Preciso rever prioridades e administração do meu tempo em relação a leitura da Palavra?
- Tenho nutrido o hábito de adorar a Deus sozinho?
- Tenho descansado semanalmente o suficiente à luz do princípio do sábado?
- Faço parte, efetivamente, de uma comunidade de cristãos desejosos em crescer na fé?
- Onde foi parar o fogo que outrora queimava por conhecer o Pai e ser como Jesus?
Espero ver-te no próximo post, quando escreverei um pouco sobre cada uma das quatro disciplinas espirituais que nos colocam no trilho da liberdade espiritual.
