Se nunca ouviu falar sobre amizade espiritual, não estranhe. Não é algo demasiado místico ou fora da realidade. Para os cristãos, amizade espiritual é um relacionamento intencional entre duas ou mais pessoas que querem crescer espiritualmente. Algo que representa uma parceria na jornada da fé, um jeito de refletir sobre a vida e o relacionamento com Deus, dialogando, ouvindo, orando e falando sobre temas grandes e pequenos, enquanto se busca o amadurecimento. Não é codependência de alguém, mas companhia na estrada. É poder pensar alto, admirar a paisagem com pausas e ter um bom eco ao lado, que se solidariza, sugere, intrui e guia.
Um dos equívocos comuns assumidos imperceptivelmente por nós, cristãos de tradição protestante, é o de que nos basta a racionalidade, a boa teologia, a explicação, a dissecação do mistério, verbos e complementos, enfim, o uso afiado do cérebro à moda grega. Assim, achamos que conectarmo-nos a uma igreja doutrinadora (não uso o termo de forma pejorativa, mas positiva) e super ativa será o suficiente para o nosso crescimento. Bastará ouvirmos bons sermões, baseados na Palavra, com boa exegese e hermenêutica do texto, com teologia séria e metodologia expositiva. E, como cereja do bolo, participarmos de ministérios etários, liderança, voluntariado, cooperando na cantina, no acampamento, no bazar beneficente, nos grupos pequenos, na agenda social e até fazendo evangelismo nos subúrbios da cidade. Nossa cultura espiritual apreendida e sedimentada há décadas pelo exemplo de nossos pais espirituais nos diz que teologia e práxis são o casamento perfeito, e que lógica e ação já fazem a boa limonada. Mas, nem sempre isto é o suficiente.
Deus nos fez seres relacionais, à Sua imagem e semelhança. Por isto deu Eva a Adão, e Adão a Eva. O relato do Gênesis é didático. Deus nos fez seres comunitários, como é a Trindade Santa. Carecemos de relacionamentos: com Deus e uns com os outros. É claro que eu jamais me oporia à importância fundamental de uma igreja sadia na Palavra e pronta a praticar o que aprendeu, transformando a informação da salvação em revolução de serviço - na igreja, na cidade e no mundo. Mas, nem sempre o cérebro e as mãos dão conta do nosso crescimento espiritual. Precisamos de relacionamentos significativos. Precisamos do coração. Especialmente em tempos de crise. E a multidão que se ajunta para o culto público do domingo pode representar muito pouco daquilo que realmente nos leva a crescer.
É nesta ausência gerada pela vida corrida dos nossos dias que Henri Nouwen aponta para a necessidade de amizades espirituais. Pessoas que acompanhem a nossa jornada de fé com Jesus Cristo, e que sejam nossos amigos da alma. Condutores do nosso coração. São relações onde ambas as partes dão e recebem benefícios, e que extravasam o formato piramidal de supervisão empresarial. É troca, compromisso, auxílio e oração. É escuta, interpretação da vida, sabedoria cotidiana e ponderação das dúvidas e medos. Este tipo de acompanhamento espiritual foi entendido por Nouwen como
...uma relação iniciada por alguém em busca de espiritualidade, que encontra uma pessoa de fé experiente, disposta a orar e responder com sabedoria e compreensão às suas perguntas sobre como viver a espiritualidade num mundo de ambiguidades e distrações.
É bem verdade que a vida espiritual carece de um pouco de solidão (ou, se preferir, solitude!). Há batalhas que são travadas a sós, de joelhos, com a Palavra aberta, que é um espelho para a alma. Mas o cristianismo não é uma filosofia individualista, e não põe um ponto final na experiência humana quando este olha para dentro de si. Pelo contrário, a vida espiritual nasce quando olhamos para o Alto, de Quem recebemos o fôlego da existência e o Espírito Santo. Precisamos de Deus, o que pressupõe tempo, mas também de comunidade, por meio da qual firmamos compromissos e expressamos beleza diversa e serviço mútuo. Deus nos fez assim e viu que era muito bom. É nesta dinâmica que a Igreja surge como a nova humanidade, um povo que celebra a vida, o perdão e partilha do mesmo pão, que é Cristo.
No entanto, há momentos em que o super culto e a agenda lotada não respondem às nossas incógnitas. Sim, há instantes, fases, períodos e estações em que a nossa alma clama por "amigos-guias". Gente que conduz o nosso coração a Jesus, e que represente um lugar seguro para a nossa alma se abrir. Pessoas que andam com Deus e nos olham nos olhos com compaixão e humanidade. Servos que podem estourar nossos balões de autocomiseração, concupiscência, orgulho, raiva e desesperança, e colocar-nos de volta com os pés e os joelhos no chão diante de Cristo.
Dou graças a Deus que no decurso da minha caminhada com Jesus tenho sido abençoado com amigos assim. Gente que já salvou-me de mim mesmo e fez-me acordar para a realidade espiritual. Pessoas que despertaram o meu "eu", minha identidade, meu chamado e vocação, e oraram quando eu mais precisei, enxotando os demônios e as mentiras de satanás da minha cabeça. Alguns destes foram sábios conselheiros, ouvintes pacientes, que conectaram-se ao meu coração e agiram como se fossem o próprio Cristo à minha frente - ouvindo pacientemente, sem alarmes no relógio. Posso dizer que vi o Senhor neles, em situações bem importantes.
E você, tem com quem partilhar a sua vida no objetivo de ser conduzido ao Senhor e ser mais maduro na jornada da fé?
