Olá, pessoal!
Estou longe, é verdade, mas não indiferente ao atual momento que vive o nosso país, às portas do segundo turno das eleições presidenciais. Como brasileiro, queria partilhar alguns pensamentos. Espero que lhe sejam úteis.
Começo por dizer que um país dividir-se politicamente é normal. Já aconteceu e acontece em muitos lugares. É democrático. Faz parte do game. Mesmo que a polarização o assuste, é o jogo. E pessoas de mesmo credo irão discordar em assuntos de gestão pública com suas imensas variáveis, narrativas e interpretações - e farão parte das estatísticas para ambos os lados. O ditado "cada cabeça uma sentença" exprime bem tal pluralidade. E pode até ser que na mesma cabeça haja duas, três ou quatro sentenças, brigando entre si pela primazia na hora do voto. A vida é complexa, e a vida em sociedade é mais ainda.
Mas quanto aos que dizem seguir a Cristo, assusta-me a facilidade com que se deixaram fissurar tão violentamente por causa de divergências no espectro político. Refiro-me a ofensas, cancelamentos, ódio, ameaças, suspeitas, julgamento e agressões que comprometem a comunhão que custou o sangue do Cordeiro crucificado que nos fez irmãos. Isto é ir longe demais. Significa que caímos no jogo satânico de confiar em Césares e amar Roma como nossa cidade. Quem chegou neste grau de fanatismo político-partidário-ideológico (repito, quem chegou neste grau de fanatismo) precisa avaliar se não perdeu de vista o Evangelho, a narrativa cristã total, a cosmovisão bíblica completa, da universalidade da Queda, da grande e singular Redenção em Cristo e do horizonte de esperança e apoteose escatológica com o retorno de Jesus, dando fim aos sofrimentos da Igreja na História. Eu sei que o assunto nos toma de assalto e apaixona. Mas ficar dizendo quem é de Deus e quem é do diabo no presente cenário político, atribuir endosso divino a um e maldição eterna a outro neste teatro de fantoches, neste pau de galinheiro cheio de sujeira dos dois lados, é de uma precipitação temerária. Menos, povo de Deus. Este maniqueísmo não é bíblico, é pagão. Nossa voz profética tem de ser capaz de denunciar os pecados de ambos os lados, para não sermos encontrados entre os bobos da corte. São só dois pobres pecadores, mais fraquinhos que Nabucodonosor, Acabe, Manassés e Nero. E os eleitos de Deus sobreviveram a todos estes. Pois o Salvador deles era forte. E ainda é.
Então, o certo é ficar em cima do muro? Atenção para não distorcer tudo. Leia de novo, se preciso, pois eu não disse isto. Não é votar, se posicionar, escolher um dos candidatos, falar publicamente a sua escolha, que o torna automaticamente em um idólatra fanático ou apóstata da fé. Certo é que nenhum cristão maduro compra o pacote inteiro da direita ou da esquerda, pois são projetos de Babel. São ideologias falidas porque o ser humano é falido, carente de redenção e de um reino superior. Com base no Evangelho, que é do Alto, discernimos a vida pessoal, familiar e pública do país e jogamos conforme as regras do tabuleiro democrático. Ou seja, neste momento avalie o miserável pecador (como nós) que lhe faz mais sentido, exerça seu direito e escolha! Você é livre, e tem quatro opções. Dois candidatos, o voto nulo e o voto em branco. Cada uma com sua consequência. E as quatro opções são democráticas, legítimas e direito seu. E que ninguém lhe mande para o inferno, pois quem tem o direito de fazê-lo é Deus. E que todos percebam que o complexo tecido social brasileiro é plural e diverso demais para ser resumido em dois únicos rótulos, esquerdopata e fascista. Há muita gente que não é nem um, nem outro, e que votará na lógica do menos pior e do mal menor. É o que é. Não há volta a dar.
A tolice não está no voto, mas como diz a Bíblia, no coração. Pois o Tribunal Superior Celestial - que apura tudo e todos consoante a verdade - poderá inocentar alguém que vota no candidato que você odeia. Já pensou? Escolha como quiser, consoante os seus valores, conhecimento, visão de sociedade, calculando os impactos e riscos da sua decisão. Decida por aquilo que considera melhor para a "coisa pública", pensando em todos e sem ferir a sua consciência; e pronto. Mas continue orando e confiando em Deus. Porque do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e os que nele habitam (Sl 24.1).
Vale dizer que este momento do Brasil já foi vivido em outros países no passado. E onde Estado e Religião se enamoraram, corromperam-se mutuamente. Vou dar o spoiler: a atual geração europeia olha a prostituição passada entre religião e Estado e sente náuseas - pois já não consegue distinguir Cristo dos cristãos, e não compactua com os esforços hegemônicos de uma instituição que usou o poder, o dinheiro e a influência para oprimir, matar e impor seus dogmas em nome de Deus. Se a História serve para alguma coisa, já está a nos dizer que uma possível junção, flerte ou associação indevida entre Igreja e Estado, pastores e políticos, púlpitos e palanques, dízimos e favores, poderá atrapalhar que as futuras gerações vejam o verdadeiro Jesus que tanto amamos.
O parágrafo acima foi uma breve reflexão sobre o modus operandi bolsonarista e seus efeitos a longo prazo. Desde Constantino a História está aí para ilustrar. Toda vez que o povo de Deus fez aliança com o Estado, quem ficou mal na história foi o Nome de Jesus, que passou a ser blasfemado nos círculos de fora da fé cristã. Do lulismo e petismo há muito material para condená-los, acho que não preciso gastar tempo com isto pois para reprová-los é só recorrer ao óbvio que fere a nossa cosmovisão em pautas morais, somado aos escândalos de corrupção dos últimos vinte anos. A tarefa cidadã não está fácil para ninguém, e nenhum lado se safa. Portanto, não condene quem vota diferente de você.
Para concluir, relembro que, graças a Deus, o Mestre continua no Trono, e nada pode mudar isto. Como sinalizou Guilherme de Carvalho, quem sabe se qualquer dos dois candidatos será apenas a vara que Deus usará para disciplinar o Seu povo? Não temos como saber, mas a tarefa atual pede-nos sensatez, oração, confissão e comunhão, independentemente do voto discordante do nosso irmão.
