Estas palavras de Paulo aos coríntios em sua segunda carta já me causavam grande reflexão desde os tempos do seminário. Foi numa aula de Filosofia do Ministério Pastoral que o professor Jairo Moreira abordou a postura do apóstolo para com os crentes de Corinto como modelo de práxis pastoral. Éramos jovens seminaristas aspirantes do ministério, e aprendíamos sobre o papel de labutar com o fim de apresentarmos a Igreja como uma virgem pura ao Salvador. Discutíamos em aula que, nem o mercado americano das fórmulas eclesiásticas, nem as tradições histórico-religiosas européias, deveriam nos hipnotizar, de modo a perdermos a devoção e simplicidade devidas a Cristo.
Os temores de Paulo quanto ao desvio da simplicidade do Evangelho pelos coríntios sempre me soou certa imaturidade daquela igreja local. Afinal, eram crentes novos, viviam numa cidade bastante paganizada, cheia de ofertas para pecar, cometiam partidarismo na relação com os líderes internos da comunidade e pareciam nem discernir a Ceia do Senhor. Logo, eram um pessoal fácil de subornar, manipular, enganar, e que estava pronto para abandonar a simplicidade do Evangelho em troca de qualquer saco de doces do inferno.
Mas hoje li este texto de um lugar diferente. Não do púlpito do apóstolo, mas do banco dos coríntios. E passei a pensar que não são só os crentes novos que se corrompem e deixam o Evangelho. O alerta apostólico é penetrante, e parece ainda mais estarrecedor quando observamos a liderança das igrejas atuais. Pastores, bispos, presbíteros, palestrantes, escritores, professores de teologia, ensinadores no presencial e no digital, todos, corremos o mesmo risco. De que a nossa devoção pura e completa a Cristo seja corrompida, como diz Paulo, "de algum modo".
É interessante esta expressão. "De algum modo" denota incerteza, mistério, a incapacidade de percebermos exatamente o que nos pode acontecer no processo da caminhada cristã que corromperá a nossa devoção. A jornada com Cristo é longa, muitas coisas podem ocorrer, as distrações são inúmeras, e as vozes macias de teologias meio certas seduzem os mais intelectuais e preparados ministros. Nem falo dos abusadores sexuais e ladrões do rebanho, falsos pastores que são inimigos de Cristo e nem é preciso mencionar algo tão óbvio. O veneno é silencioso, e a corrupção do Evangelho pode estar entre os que tem aparência de piedade, mas negam transformação com suas palavras e atos. Uma coisa é fato: os tentáculos da religião são extremamente perigosos, viciantes e têm corrompido muitos homens e mulheres outrora consagrados ao Senhor. Emergimos no alvorecer da juventude como se fôssemos uma brasa ardente por Cristo. Passam os anos e a vida nos mostra que somos feitos do mesmo pó que os nossos pais. Como disse Elias, quando fugia de Jezabel para uma caverna no monte Horebe, "não sou melhor que meus antepassados". Na voz de Elis Regina isso soaria como "ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais". Pois é, não somos mais espirituais que a geração que nos antecedeu.
Há um caminho que, talvez, possa ser comum a muitos lideres. Atravessados pela espada do Espírito na infância ou juventude, num acampamento, congresso ou conferência, entregaram-se radicalmente a Jesus e imaginaram que uma revolução viria por meio de suas vidas no altar. O fogo, o amor, a devoção, a busca pela pureza e a consideração da vontade do Senhor estavam presentes em cada decisão. Seguiram para o seminário ou instituto bíblico, ganharam fome por conhecimento e, anos mais tarde, envolvidos pelo emaranhado comum da vida, encontram-se longe daquela devoção completa e pura que tiveram. Ideologias, teologias, filosofias, relativismos, crises com a verdade, frustrações, disputas estéreis e desapontamentos no caminho macularam a antiga devoção.
Para além disso, há aqueles que, consciente ou inconscientemente, têm contribuído para a corrupção do Evangelho. O mercado atual dos pregadores exige tal sabedoria filosófica, política, digital, relacional, terapêutica e empresarial de todas as áreas que, ou afirmamos nossa douta ignorância com os humildes "não sei", "não tenho explicação" e "apesar disto, confio", ou morderemos o fruto do conhecimento do bem e do mal só para poder ter resposta pra tudo - sem percebermos que tal vaidade nos levará à morte. É por este caminho que encontramos bichos falantes e serpentes sedutoras, com teologias mais abertas e prontas para por em questão o que Deus disse. E neste ponto é que as palavras milenares de Paulo acertam em cheio. Lideranças corrompendo a simplicidade do Evangelho e da igreja, desde quando deixaram na vida pessoal, a devoção pura e completa a Cristo que tinham antes.
Mas há caminho de volta. Graças a Deus. Esta é a história da Redenção. Do Deus que ama o contrito e ouve a súplica do arrependido. Aquele que deixou tudo e morreu por nós para revelar-Se Senhor e Amigo. O chamado de Deus continua a ecoar aos seus filhos, especialmente àqueles aos quais foram dados vocações para conduzir o povo de Deus. Que nós, líderes cristãos, pastores, pregadores, ensinadores bíblicos da atualidade, não envelheçamos tanto na cadeira de Moisés a ponto de contrair Alzheimer devocional, esquecendo-nos de quem fomos no começo de tudo e de quão boa é a simplicidade do Evangelho.
