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Disciplinas da Liberdade - II

    Na sequência do que partilhei no primeiro post "Disciplinas da Liberdade", vamos seguir pensando sobre liberdade espiritual no trilho das disciplinas espirituais. Espero que o conteúdo edifique você e o leve à frutificação! 



    Proponho-me a pensar que a rota da verdadeira liberdade é trafegada sobre o trilho das disciplinas espirituais. Imagine um trem a deslizar tranquilo, fluidamente sobre uma ferrovia. Nada o abala, e sabemos que chegará ao seu destino no tempo devido. Mas, se lhe tiramos os trilhos, o que acontece? O trem não consegue prosseguir. Alguém diria que os trilhos são amarras que tiram a liberdade do trem de ir e vir, como e para onde quiser. São padrões pré-estabelecidos que obrigam-no a seguir uma rota previamente traçada pelos engenheiros construtores da ferrovia. Logo, sobre os trilhos  o trem não tem escolha, não é livre! Quão tolo seria este argumento a qualquer pessoa que precisa pegar um trem no Porto para chegar em Lisboa! Mas este é o raciocínio de muita gente que acredita que a Palavra de Deus e as disciplinas espirituais são sistemas opressores da liberdade humana. Sem trilhos, não fluímos, não desenvolvemos, não chegamos a um destino e não desfrutamos da liberdade do deslize livre sob a direção do Maquinista.

    As disciplinas espirituais são como estes trilhos na nossa jornada. Sobre tais trilhos fluímos no plano maior e melhor de Deus, ao passo que fora deles paralisamos, atolados em nossa iludida anarquia.
  • Liberdade espiritual é nos relacionarmos com Jesus, o Salvador, que libertou-nos dos nossos pecados e culpas por Sua morte na cruz - a liberdade espiritual básica é algo dado, gratuito, não conquistado por nossos esforços, mas pelos méritos de Jesus na cruz (Jo 8.32-36; Rm 6.6);
  • Como cristãos, necessitamos prosseguir crescendo na fé, desembaraçando-nos de pesos e pecados que ainda nos assediam enquanto corremos para o alvo, que é Cristo (Hb 12.1-2);
  • As disciplinas espirituais não são processos de "autosalvação" ou "autopurificação", nem um esquema de justificação processual ou sacramental com algum poder redentor em si próprias, mas uma resposta dócil, intencional e voluntária ao grande amor que recebemos de Jesus e que se traduz em ações práticas que visam o crescimento (2Pe 1.5-11; 3.18).

    Dito isto, prossigamos com um texto muito elucidativo da Escritura. O apóstolo Pedro é um dos autores que enfatiza a necessidade de empregarmos todo o nosso esforço na caminhada de fé com Cristo. Na sua segunda epístola, Pedro convoca-nos a acrescentarmos uma gama de virtudes fundamentais que culminam no amor, para que sejamos frutíferos e tenhamos ampla entrada no reino eterno do nosso Senhor. Leia o que escreveu o apóstolo:

"Por isso mesmo, empenhem-se para acrescentar à sua fé...
(1) a virtude; à virtude
(2) o conhecimento; ao conhecimento
(3) o domínio próprio; ao domínio próprio
(4) a perseverança; à perseverança
(5) a piedade; à piedade
(6) a fraternidade; e à fraternidade
(7) o amor.
Porque, se essas qualidades existirem e estiverem crescendo em sua vida, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, se alguém não as tem, está cego, só vê o que está perto, esquecendo-se da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a eleição de vocês, pois, se agirem dessa forma, jamais tropeçarão e assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo."
2 Pedro 1:5‭-‬11 NVI

    Concluímos com Pedro que fomos chamados a continuar pelo caminho do amor que nos moveu no início. Somos chamados a nos manter em movimento, ganhando novos quilômetros rodados, apreciando novas paisagens, sob o mesmo trilho do começo. Isto não é fácil. Fácil é perdermos a paixão por Jesus, distrairmos a mente no mundo e deixarmos de crescer e frutificar. E é justamente para que permaneçamos com o foco e o coração direcionados para Cristo que as disciplinas espirituais nos auxiliam, e tornam ainda mais exuberantes a nossa liberdade do pecado. Perceba que todo o esforço ao qual Pedro convoca-nos a empregar é precedido pela declaração de que já recebemos tudo de Deus para desenvolvermos a fé. O divino poder do Senhor nos tem doado "tudo de que necessitamos para a vida e a piedade" (2Pe 1.3). Fica evidente que não adentramos o trilho das disciplinas espirituais com o fim de conquistarmos qualquer graça nova que já não tenhamos obtido pela fé. Não há barganhas aqui. Não há comércio espiritual. Não é sobre sacrifícios para ser aprovado por Deus. Não é sobre confiar em nosso esforço e justificarmo-nos por causa de nossos bons modos e religiosidade. É sobre amadurecermos com o verdadeiro sentido de liberdade.

    Vamos, então, com uma lista sugestiva de disciplinas espirituais que reforçarão a nossa liberdade em Cristo e favorecerão a nossa permanência Nele em santificação e frutificação. 


1. Disciplinas do coração
  
      As primeiras disciplinas que quero mencionar são profundamente importantes, pois dizem respeito à nossa prática de introspecção honesta, espiritual, na presença de Deus, de peito aberto, frente ao espelho da verdade. Estas disciplinas implicam olhar para dentro, trabalharmos a consciência de que o Espírito Santo habita em nós, que está segredando verdades ao nosso íntimo, e que precisamos dar valor ao que o Senhor nos diz. O coração é o centro de nossas paixões, não apenas emoções, mas mente e, também, vontades. O sábio diz em Provérbios 4.23 que "sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, pois dele procedem as fontes da vida."  Vamos, então, a algumas disciplinas a nível do coração.

    a) Confissão e arrependimento de pecados

    O ato de arrepender-se é traduzido pela ideia do reconhecimento do próprio pecado e do retorno do ser humano ao Senhor Deus. É uma concordância com o que Deus diz sobre as coisas, e um abrir mão das nossas justificativas falsas e orgulhosas. É o "cair em si", como aconteceu ao filho pródigo da parábola. Jesus asseverou que sem arrependimento todos, igualmente, irão perecer (Lc 13.1-5). E foi o reconhecimento de pecado e a fé em Jesus que deu ao ladrão da cruz a absolvição e entrada no Paraíso.
      Não há como experimentar genuína liberdade espiritual com a consciência maculada, cauterizada ou com o coração empedernido diante de Deus. A mente tem de mudar. Ninguém voa leve com pecados amarrados aos pés. Para isto, precisamos confessar os nossos pecados a Deus (1Jo 1.9) e deixá-los com resolução (Pv 28.13,14). Às vezes, é preciso recorrermos a irmãos maduros para fazermos confissão (Tg 5.16).
     Confessar é concordar com o veredito do Céu sobre a nossa situação. É declarar que, para todos os efeitos, Deus está certo, e nós errados. E temos de lembrar que é a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento (Rm 2.4). Ou seja, até para nos arrependermos de verdade precisamos da ação bondosa, tolerante e longânima de Deus em nosso favor. Os salmistas são ótimos exemplos de real confessores - especialmente Davi (Sl 32; 38; 51). Faça da confissão de pecados uma disciplina espiritual diária em sua vida.

    b) Oração

    Não é preciso muito esforço para encontrarmos o valor imensurável que a oração tem na Bíblia. Nas páginas da Escrituras é possível encontrarmos inúmeros exemplos de fé que nos inspiram a uma vida de comunhão com o Deus Eterno, que deseja se relacionar conosco. Desde Gênesis, temos a menção de Sete, filho de Adão, que começou a invocar o nome do Senhor (Gn 4.26). Depois dele, são inúmeros os testemunhos da Palavra de Deus que demonstram o valor da comunicação aberta com Deus. Noé, Abraão, Moisés, Davi, Daniel, Jeremias, Neemias e tantos outros nos motivam a buscarmos ao Senhor em verdade. Depois, temos a vida perfeita do nosso Senhor Jesus, que era marcada por uma comunhão plena com o Pai, e que caracterizou-se pela prática e ensino da oração (Mt 6; Jo 17). A igreja primitiva e os apóstolos do nosso Senhor logo perceberam que precisavam orar e perseverar nesta prática, até como arma espiritual frente às investidas do maligno (Ef 6).

    c) Jejum 

    Quanto ao jejum, vemos que desde o Antigo Testamento esta era uma disciplina espiritual praticada tanto a nível individual quanto coletivo, em ocasiões especiais e de humilhação perante Deus. O profeta Isaías chegou a repreender o povo que, em sua época, praticava o jejum, mas mantinha uma vida de injustiça e opressão, desobedecendo abertamente as ordenanças da Aliança (Is 58). Eles julgavam que o jejum sendo cumprido, eles estavam livres de obedecerem a Deus nas demais coisas da vida cotidiana, mantendo a ganância, a idolatria e a injustiça no coração de suas relações. Já no Novo Testamento, Jesus também praticou e ensinou sobre o jejum, destacando o caráter sóbrio, privado, humilde e alegre que se deve ter quando jejuamos (Mt 4.2; 6.16-18). O jejum, via de regra, é um tempo de abstinência  alimentar dedicado à oração, à leitura bíblica, à adoração e reflexão, tendo por intuito (1) humilhar-se diante do Senhor, (2) dar foco nas coisas espirituais por um período de tempo e (3) declarar que Cristo é o alimento essencial de nossa existência.

    Três disciplinas do coração: confissão, oração e jejum. Quem quer andar em liberdade com Jesus, tem de assumir a confissão como disciplina genuína, sincera e pura de sua jornada. Almejar andar limpo, sem culpa, sem medo e sem deixar brechas para a acusação do inimigo e do mundo. Sobre a oração, orar é respirar. É de Deus que recebemos todo o consolo e segurança para a vida. Não se pode guerrear na batalha espiritual em que estamos inseridos sem vida de oração. E o jejum é este complemento igualmente importante, que revela a nossa condição miserável perante Deus, que a comida e as regalias alimentares disfarçam. Quando deixamos de fazer uma refeição sequer, vemos quão pobres e frágeis somos, apercebemo-nos de nossas paixões internas mais difíceis de controlar, e como somos seres tão agarrados ao imediatismo desta terra. Concluímos que somos carnais, fracos de autodisciplina e, portanto, capazes de cometer pecados horríveis pela dificuldade que temos de dominar a nós próprios. Jesus disse que quando lidamos com batalhas espirituais fortes, as castas de demônios só serão vencidas com oração e com jejum (Mc 9.29). Cuidemos bem do lugar secreto do nosso coração!


2. Disciplina do Livro

     Refiro-me, obviamente, a buscarmos a Deus em Sua Palavra. O Salmo 1 começa com um ode à Palavra de Deus, que é a meditação do justo de dia e de noite. Não há como fluirmos com genuína liberdade na viagem da fé sem os trilhos da Escritura Sagrada. Mas não só como um livro de regras e moralidade, mas um meio para o relacionamento correto com Jesus Cristo. Porém, temos de reconhecer que há tendências muito comuns entre os cristãos, diametralmente opostas, e que representam aquilo que devemos fugir com todas as nossas forças no que tange à leitura da Palavra de Deus.
    De um lado, há aqueles crentes que já sentem-se muito experientes, que não precisam mais ler a Bíblia, que pensam já saberem tudo, e que quando lêem, fazem disto uma tarefa acadêmica, de curiosidades informativas, sem qualquer busca sincera por encontrarem a Deus ao nível do coração. Do outro lado, há os que negligenciam a leitura da Bíblia, pois dizem não entenderem sua mensagem, encontram dificuldades de compreensão e são embalados no sono e na preguiça espiritual. Os dois polos de comportamento são muito ruins, e não cooperam para o nosso crescimento na fé. Isto, sem mencionar o veneno maligno da incredulidade e do relativismo quanto à inspiração bíblica, que mata paulatinamente o discípulo de Jesus.
    Encontrar Deus no Livro é uma das sugestões de Henri Nouwen, como disciplina do coração. Ou seja, a Bíblia não nos foi dada apenas para informação e instrução, mas para a nossa transformação e aprendizado em obediência. Faz-se necessário estarmos prontos para ouvir a Deus, orar Sua Palavra e dispormo-nos a obedecê-Lo. Há aí uma escuta ativa, quando praticamos a lectio divina - a leitura sagrada das Escrituras e de outros textos espirituais, em tom devocional e de oração. Temos de desenvolver o nosso ouvido interior, deixarmos a surdez que nos é natural para as coisas de Deus, e meditarmos no Deus que tem uma palavra a cada uma de nós que vai de encontro com nossas aspirações mais profundas. E que por meio desta Palavra, reconhecemos o nosso lugar e ouvimos Deus a responder por meio de Sua Grande História Redentiva quem somos nós, e como é que nos encaixamos em Seu plano. A Bíblia, neste sentido, é essencial como disciplina que reforça a nossa liberdade.

3. Disciplina da comunidade

    Além do olhar atento para o nosso interior e da escuta ativa da voz de Deus em Sua Palavra, faz-se necessário adentrarmos a comunidade do povo de Deus, a Sua igreja, como parte de nossas práticas espirituais. É preciso entendermos que a jornada que temos não é solo, e que o trem da Graça divina carrega tantos outros passageiros a mais que nos fazem companhia. O Senhor amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela. Envolver-se na Igreja e com a Igreja é envolver-se com Aquele que por ela morreu e ressuscitou.
    Na disciplina da comunidade, estamos testemunhando juntos os atos de Deus na História, e nas nossas histórias, dividindo dores e dons, sofrimentos e milagres, partilhando da vida de Jesus, que nos ensina a olharmos para nós próprios e para a vida de maneira adequada. Deus é uma comunidade em Sua Santíssima Trindade. E como tal, nos fez à Sua imagem e semelhança, e não nos destinou para uma viagem solitária aqui. O Espírito Santo inseriu-nos na família de Deus, tornando-nos herdeiros de Deus e co-herdeiros em Cristo Jesus. A nossa vida flui e decorre dos atos de Deus para com o Seu povo no mundo.
    Segundo Nouwen, "uma comunidade de fé lembra-nos continuamente aquilo que se passa no mundo e na nossa vida". E é mesmo isto. Quando praticamos conscientemente esta graça da vida em comunhão com outros irmãos, com maturidade e sem expectativas irreais de perfeição nas outras pessoas, percebemos que a coletividade nos salva. Que é no contexto de uma igreja real e sadia que crescemos de verdade, que somos advertidos de nossa rebeldia ainda presente, e que é na vida partilhada que Jesus se revela e nos surpreende.


Conclusão

    Abandonar a disciplina e o temor de Deus não é sinônimo de vida boa, alegria sem limites e liberdade verdadeira. Jesus pagou alto preço por nós, para libertar-nos de nossos pecados. Não dê ao inimigo a oportunidade e o direito de destruir a sua história por causa de uma avidez pela independência de Deus. A liberdade nunca estará no caminhar irresponsável, imediatista, ganancioso, egoísta e imoral. Jamais será encontrada nas idolatrias pessoais e culturais que apelam aos desejos carnais noite e dia. Não é sobre fugir por aí sob efeito de um alucinógeno, baldar-se em festas e bebedeiras ou cometer alguma loucura afetiva e sexual. Também não se trata de cometer alguma irregularidade pela simples emoção de cometê-la, imaginando que "a regra é não ter regra nenhuma".
    Leve a sério o sacrifício de Jesus por você e amadureça. Cresça em sabedoria. Fuja do pecado. E mais que isso, desenvolva a sua fé por meio das disciplinas livres e espirituais, que o levarão a frutificar para o Senhor Jesus Cristo. Disciplinas da liberdade - do coração, do Livro e da comunidade - é o que desejo que nos apliquemos com carinho, como resposta dócil ao Deus amoroso que nos salvou e que quer nos ver deslizar e fluir em Sua Graça, para a Sua glória!

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